Para minha vó, Neuci Leal de Leal, ou só Nanci (a mulher mais teimosa que já conheci).
Então eu nunca mais verei-te. Desvanecestes no ar como todas as coisas vivas. Pena que tinhas significado para mim... E o sal escorre por meu rosto. E a culpa é minha e só minha. Porque eu te deixei para depois para amanhã.. E aí fostes embora… Como todas as coisas vivas.
O negro é o caminho natural, dizem-me. O vermelho era a cor de tuas unhas. Sempre. A dama de negro te tomou pela mão e nada posso fazer quanto a isso. Só sal que escorre de meu rosto.
O que aconteceu com a guria daquele olhar confiante que jurava que o tempo e o mundo estavam a seus pés e o dever dos outros era acatar suas ordens? Porque te deixastes levar pela mão sem antes resistir. A teimosia tua te fez querer ir junto com ela? Foi isso?
Aqueles olhos de fogo hoje deixaram de brilhar. E o tempo chuvoso se encontra. As nuvens lá no céu, prontas para despejarem água sobre a terra. A chuva que ia apagar o fogo de teus olhos? Ou são outras lágrimas misturadas às minhas?
Escuro hoje. E a essa hora tomarias chimarrão com ele. E a essa hora, vocês fariam o café da manhã para mim e minha prima. E minha visão turva se encontra porque ambos agora são apenas lembranças.
Mas a essa hora, estarias com tua escova de cabelos em mãos. E o secador. E o batom. E os saltos. Porque eras mulher. E ninguém, ninguém neste mundo te tiraria a altivez. E o fogo nos olhos. E as unhas vermelhas. Sempre vermelhas e longas. Tuas armas, em alguns momentos.
A essa hora, estarias de biquini na praia. Caminhando. Os pés na água, o biquini sumário. Ou durante o chimarrão falaria como foi o primeiro encontro com ele. Tinhas 13. E ele seria teu. Foi o que dissestes… E ele foi teu, não foi? Até o fim, foi teu.
E a essa hora, eu cobiçaria teu casaco vermelho, aquele que me destes. Virei chapeuzinho vermelho… Minha avó me deu um belo casaco. E um bom gênio. Os nossos olhos de mesmo olhar. O mundo é nosso, não é? Há um fogo nestes olhos. Que me destes de presente. E eu agradeço. Hoje, a noite caiu. Hoje, o céu não quis mostrar seu fogo. Hoje o fogo não se mostrou. Teus olhos fecharam. Teu fogo apagou. E logo a chuva vem… Mas meus olhos vão queimar ainda mais, pois tua chama destes de presente para mim… Logo a chuva vem, a terra se molhará, com a lágrimas do céu e as minhas.
Minha avó faleceu hoje. 3:30 da manhã. O texto é para ela. Ela era de touro, tinha olhos castanhos e um gênio muito forte e ruim (que em parte eu herdei). Ela sempre pintou as unhas de vermelho. O único camarão que eu gostava de comer era o que ela fazia para mim. Quando eu ia para a casa dela quando pequena, ela fazia torradas para mim e minha prima. Quando eu fazia companhia para ela, tomávamos chimarrão juntas. Quando ela e a mãe brigavam, eu ria. E as duas brigavam muito. As duas tinham gênios infernais. E ela me dizia, te arruma! Que assim arranjas namorado. E eu não me arrumava… E ela brigava com a mãe e não a elogiava nunca. Aí, quando a mãe não via, falava para os outros, minha filha pinta, minha filha isso, aquilo outro. E a mãe não sabia. Aliás, elas nunca se acertaram direito. Mas a essa hora da manhã, ela estaria de secador na mão. Ela estaria se arrumando para sair. E se ela estivesse aqui em casa com a mãe fazendo isso, a mãe a esta altura do campeonato estaria de cara e as duas certamente iam brigar…